Psicanálise não é ajuste ou adaptação, é insurreição

Argumenta-se que a psicanálise, desde Freud e radicalizada por Lacan, não visa adaptar o sujeito às normas sociais, mas criar as condições para atos de subjetivação que desestabilizam imperativos de normalização e governo de condutas. A partir de Freud, Lacan, Adorno e autores contemporâneos no Brasil (Birman, Dunker, Safatle), discute-se: (1) a ética do desejo e a crítica à higienização social adaptativa; (2) a diferença entre clínica e adestramento comportamental; (3) as consequências políticas de uma prática orientada pela emergência do ato e pela emancipação. Conclui-se que a psicanálise é uma prática de insurreição do sujeito contra os dispositivos de captura do gozo e de gestão de vidas, o que a torna um saber-clínica de resistência e não um instrumento de ajuste.
Introdução
A ideia de que a psicanálise “ajusta” pessoas a padrões de normalidade persiste no senso comum e em certas políticas públicas que demandam da clínica a pacificação de conflitos. Esta leitura contraria a lógica própria do dispositivo analítico: longe de calibrar comportamentos à ordem vigente, a psicanálise confronta o sujeito com o mal‑estar inerente à cultura e aposta na elaboração singular de seu desejo (FREUD, 1930/2010). Em Lacan, essa aposta ganha uma inflexão ética e política: não se trata de adaptar, mas de sustentar o desejo contra ideais de conformidade (LACAN, 1991; 1992). Tal orientação converge com a crítica adorniana à educação como mera socialização funcional e recoloca a clínica ao lado de processos de emancipação (ADORNO, 2006).
Este artigo defende a tese: psicanálise não é ajuste ou adaptação; é insurreição, isto é, uma prática que autoriza a ruptura com identificações normativas e com a captura do sujeito por dispositivos de gestão da vida. Para tanto, articula-se: (a) a ética do desejo em Freud e Lacan; (b) a diferença entre tratamento e adestramento; (c) consequências políticas da clínica como lugar de ato.
Mal‑estar e a recusa da higiene social adaptativa
Desde “O mal‑estar na civilização”, Freud localiza um conflito estrutural entre exigências pulsionais e renúncias impostas pela vida em comum. A clínica não tem por missão eliminar tal conflito, mas fazer operar a palavra sobre o sofrimento, deslocando sintomas e abrindo vias de criação de destino singular (FREUD, 1930/2010). Quando, mais tarde, Freud problematiza fins e limites do tratamento, ele recusa qualquer horizonte de “cura total” ou de perfeita integração do Eu; o trabalho é interminável e não se confunde com normalização (FREUD, 1937/2016).
No século XXI, diagnósticos do “mal‑estar na atualidade” indicam novas formas de sofrimento, medicalização difusa, patologização do desvio e gestão biopolítica da vida. Joel Birman destaca que tais regimes tendem a transformar a clínica em dispositivo de governabilidade, perdendo seu vetor crítico (BIRMAN, 2003). A psicanálise, ao contrário, desconfia de protocolos de “adaptação saudável” e sustenta que a vida subjetiva não se reduz a métricas de performance ou conformidade.
Ética do desejo: de Lacan à política do ato
Lacan desloca a prática analítica para uma ética que não visa o Bem como harmonia coletiva, mas a sustentação do desejo face ao gozo e à Lei. No “Seminário 7: A ética da psicanálise”, a clínica é pensada como experiência que não capitula ao ideal de felicidade adaptativa; trata-se de fazer existir o desejo sem transformá-lo em moral de costumes (LACAN, 1991). No “Seminário 17: O avesso da psicanálise”, o ensino dos discursos mostra como a psicanálise funciona como contradiscurso frente ao discurso do mestre e ao império da técnica (LACAN, 1992).
Essa inflexão tem desdobramentos políticos: a direção da cura não se confunde com “correção” de condutas, mas com a autorização de um ato, um corte simbólico que reconfigura laços, posições de gozo e modos de dizer. No Brasil, Christian Dunker sublinha que a passagem do discurso do mestre ao discurso do analista implica uma incidência pública da psicanálise, na qual o sintoma se torna matéria de laço e de transformação, não de silenciamento (DUNKER, 2017; 2018). Vladimir Safatle, por sua vez, discute a potência política do ato e da transferência como operações de desidentificação e criação de novas formas de vida em comum (SAFATLE, 2021; 2024).
Clínica não é adestramento: diferenças de método e propósito
A confusão entre clínica e técnica de adestramento decorre de três reduções: (i) reduzir o inconsciente a repertório de crenças corrigíveis; (ii) supor que sofrimento se resolve por recondicionamento; (iii) tomar “normalidade” como objetivo terapêutico. A psicanálise recusa as três.
Primeiro, o inconsciente não é coleção de opiniões falsas, mas uma lógica de desejo e gozo que se manifesta em lapsos, sonhos, sintomas. Interpretar não é corrigir crenças, é operar deslocamentos no dizer, tocando o que excede a consciência (LACAN, 1998).
Segundo, a transferência não é técnica de persuasão, mas campo onde o sujeito inventa respostas singulares. Intervenções analíticas não fornecem normas, mas precipitam atos do analisante, responsabilizando-o por sua posição no desejo (FREUD, 1912/2010; LACAN, 1991).
Terceiro, o critério de êxito não é adaptação, mas a queda de ideais que sustentavam o sintoma e a abertura de novos arranjos de gozo compatíveis com a vida do sujeito. Tais mudanças frequentemente entram em atrito com expectativas institucionais de ajustamento. É nesse atrito que a psicanálise conserva sua força insurrecional (DUNKER, 2017; BIRMAN, 2003).
Educação, emancipação e a crítica à adaptação
A crítica adorniana à educação como mera socialização dá arcabouço normativo à tese aqui defendida. Para Adorno, uma educação digna desse nome não integra indivíduos a qualquer custo, mas promove autorreflexão crítica e resistência à barbárie, isto é, à repetição cega de ordens e à adesão ao administrado (ADORNO, 2006). Tal perspectiva ressoa na clínica psicanalítica: o trabalho analítico emancipa quando permite ao sujeito não se confundir com as identificações que o capturam, inventando saídas não previstas pelo repertório de comportamentos aceitáveis.
Assim, quando políticas públicas e programas institucionais convocam a psicanálise como técnica de “regulação emocional” para melhorar a produtividade, perdem o ponto: aquilo que a psicanálise oferece é a possibilidade de dizer “não” a imperativos de desempenho, explorando outras formas de laço e trabalho. Nessa medida, a clínica não é neutralidade; é posicionamento ético diante de formas de sofrimento produzidas por racionalidades de gestão (SAFATLE, 2024; BIRMAN, 2003).
Insurreição do sujeito: o que se subleva?
Chamar a psicanálise de “insurreição” não é militarizar a clínica, mas afirmar que nela se subleva:
- o dizer contra discursos que pretendem nomear e governar integralmente a vida;
- o desejo contra ideais de plenitude e bem‑estar compulsório;
- o sintoma contra o consenso dos comportamentos ajustados, o sintoma retorna como enigma a ser lido, não como ruído a ser suprimido.
Tal insurreição não é voluntarismo. Ela ocorre quando, no ponto de impasse, o analisante arrisca um ato, dizer de outro modo, desejar de outro lugar, interromper o circuito repetitivo do gozo. Esse gesto produz efeitos sociais, ainda que mínimos: desloca pactos de silêncio, reorganiza relações, desnormaliza violências naturalizadas. Em contextos de conservadorismo e tecnocracia afetiva, sustentar essa possibilidade já é um ato político (DUNKER, 2018; SAFATLE, 2024).
Consequências clínicas e políticas
Para a clínica, a consequência é clara: direções de tratamento orientadas por “adaptação” (redução de dissidentes aos padrões correntes) contradizem a ética analítica. Planos terapêuticos devem privilegiar a leitura do sintoma, a desmontagem de ideais e a aposta na invenção singular.
Para instituições (escolas, empresas, políticas públicas), a psicanálise tem menos a oferecer como tecnologia de conformidade e mais como dispositivo crítico de escuta dos conflitos que a própria instituição produz. Quando acolhido, esse ponto de vista permite construir políticas de cuidado que não invisibilizam desajustes, mas os tratam como sinais de que algo na organização do laço precisa ser revisto e não apenas o indivíduo.
Para a democracia, a clínica do sujeito abre espaço para minorias de um só, singularidades que desestabilizam identidades obrigatórias e alimentam o dissenso como condição de vida comum. A psicanálise, ao não prometer harmonia, ajuda a sustentar a convivência com o conflito, o que é crucial em sociedades plurais (DUNKER, 2018; LACAN, 1992).
Considerações finais
A psicanálise nasceu de um desacordo constitutivo com as promessas de cura total e com pedagogias de adequação. Ao insistir na ética do desejo e na possibilidade do ato, ela opera como insurreição: subleva o sujeito contra imperativos de normalização, produzindo brechas onde a vida pode ser rearranjada fora dos roteiros de desempenho e conformidade. Em tempos de gestão integral dos afetos, reafirmar essa vocação é não apenas clinicamente pertinente, mas politicamente urgente.
Referêncis bibliográficas
ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006.
BIRMAN, Joel. Mal‑estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. Teoria da transformação em psicanálise: da clínica à política. Revista Psicologia USP, São Paulo, v. 28, n. 3, p. 404‑415, 2017. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext\&pid=S1519-549X2017000300010. Acesso em: 14 ago. 2025.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. O ato cardinal entre psicanálise e democracia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 32, n. 94, p. 257‑270, 2018. Disponível em: https://revistas.usp.br/estic/article/view/145359. Acesso em: 13 ago. 2025.
FREUD, Sigmund. O mal‑estar na civilização (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
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LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959‑1960). Texto estabelecido por Jacques‑Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969‑1970). Texto estabelecido por Jacques‑Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
SAFATLE, Vladimir. Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação. São Paulo: Autêntica/Boitempo, 2021.
SAFATLE, Vladimir. Dar corpo ao impossível: o ato, a política e o real. São Paulo: Ubu, 2024.




